SESQUICENTENÁRIO DO NASCIMENTO DO DR. MARQUES BASTO
Dia: 06/Nov/2009 às 20h56min
Categoria: Cultura
No próximo dia 8 de novembro do corrente ano comemora-se 150 anos do nascimento do Dr. João Maria Basto Marques, o mais ilustre médico e filho de Parnaíba. Como essa importante data não pode passar em branco e ficar no esquecimento do povo ao qual tanto socorreu nos seus momentos difíceis, sem nenhuma renumeração pelos serviços prestados, publico aqui na íntegra a sua verdadeira biografia.
No próximo dia 8 de novembro do corrente ano comemora-se 150 anos do nascimento do Dr. João Maria Basto Marques, o mais ilustre médico e filho de Parnaíba. Como essa importante data não pode passar em branco e ficar no esquecimento do povo ao qual tanto socorreu nos seus momentos difíceis, sem nenhuma renumeração pelos serviços prestados, publico aqui na íntegra a sua verdadeira biografia.
No dia 25 de janeiro de 1828, partiu da cidade de Porto (Portugal) o brigue “Apolo”, com 42 pessoas, com destino ao Brasil. No dia 3 de março do mesmo ano, com 37 dias de viagem, é aprisionado por piratas de Buenos Aires, próximo do nosso litoral. A imediata intenção dos piratas foi de por afundar o brigue “Apolo” com toda sua tripulação, mas atendendo aos apelos dos tripulantes foi resolvido deixá-los na primeira praia deserta divisada. No dia 5 de março os corsários, com o brigue “Apolo”, ancoraram na Pedra do Sal e desembarcaram a tripulação, que ficou na praia como náufragos e com perda de tudo o que possuíam. Parte da tripulação seguiu a pé para a Vila da Parnaíba, ficando na Pedra do Sal o Capitão, o Contramestre e parte dos marinheiros. Chegando a Parnaíba foi o fato comunicado ao comandante do Quartel, Antônio de Sousa, que providenciou socorro com mantimentos e cavalos aos que ficaram na Pedra do Sal. Entre os passageiros do brigue “Apolo” encontrava-se o cidadão português Paulino José Coelho Basto, com 18 anos de idade, e que seria o pai do Dr. João Maria Marques Basto (Dr. Marques Basto).
Paulino José Coelho Basto era natural do lugar Boucinha, freguesia de São João do Ermo d’Arnoia, do Conselho de Modim de Basto, nascido a 8 de julho de 1810, filho legítimo de Manoel José Coelho Basto e Josefa Álvares de Carvalho, tendo sido batizado na Igreja Católica pelo seu tio, o padre Luiz Antônio Coelho. A família, por parte de pai, era bastante numerosa residindo espalhada em diversos pontos de Portugal: Arnoia, Boucinha, Calmães, Cerqueda, Vila de Treveiro, Champiam, Vila Real e na cidade de Porto. Viera ao encontro de parentes que residiam no Brasil, mas assaltado por piratas aportou no Piauí, na Pedra do Sal em 1828.
Casou-se no dia 10 de setembro de 1846 com D. Josefa Rita Marques Basto, filha legítima do português Capitão José Antônio Marques, de tradicional família da Parnaíba. Do seu consórcio teve os seguintes filhos:
- Paulina Josefa Rita Basto, que se casou com o português Albino Gonçalves da Silva, e que foi vice-cônsul de Portugal em Parnaíba no ano de 1898;
- José Thomaz Coelho Basto, que se casou com D. Maria Amélia Fernandes Basto, pai do Dr. Fausto Fernandes Basto;
- Rita Josefa Basto, que se casou com o português José Alves Basto (sobrinho de Paulino José Coelho Basto);
- Anna Josefa Rita Basto, que se casou com o português Olímpio Magalhães;
- João Maria Marques Basto, que se casou com Dona Adélia Câmara Basto, filha de tradicional família portuguesa erradicada na Bahia, e que seria o primeiro médico parnaibano.
- Antônio, que faleceu com 4 anos e meio de idade.
Nos primeiros anos em Parnaíba, Paulino José Coelho Basto exerceu os cargos de escrivão, guarda-livros, posteriormente comerciante e botica. Teve várias safras de terras e fazendas com criação de gado vacum na Ilha Grande de Santa Isabel e na Ilha do Papagaio, esta adquirida junto a Câmara de Tutóia (MA).
Em 18 de março de 1844, no reinado de D. Maria II, foi nomeado vice-cônsul de Portugal. Nesse ano o então Presidente da Província, em dezembro, “consultava ao presidente demissionário, Dr. José Ildefonso da Silva Ramos, em Oeiras, sobre a apresentação de sua carta-patente, a fim de entrar no exercício de cargo”. Foi, portanto, Paulino José Coelho Basto, o primeiro vice-cônsul de Portugal em Parnaíba.
“A sua gestão consular incipiente foi bastante agitada, pois em apenas com 22 anos de independência do Brasil, ainda havia muitos atritos de rivalidades entre brasileiros e portugueses, especialmente nas comemorações festivas de 7 de setembro. Contudo o Sr. Vice-Cônsul Basto saía-se sempre galhardamente com a sua diplomacia, na defesa dos súditos de S. M. Fidelíssima residente na sua jurisdição e até mesmo na capital do Estado, onde nomeou delegados consulares com a anuência das autoridades portuguesas e de acordo com as brasileiras”1. Solicitou exoneração do cargo em fevereiro de 1862, sendo nomeado para substituí-lo o português e negociante Daniel Joaquim Ribeiro, natural de Coimbra. Em uma das suas cartas a seus filhos escrevera: “Amo tanto a minha terra Portugal quanto ao Brasil, terra de meus filhos, que não sei que seria de mim no caso de um conflito armado entre estas duas queridas nações”.
Foi membro da loja maçônica “União Parnaibana”, criada por carta constitucional de 27.01.1875 e Carta Capitular de 14.12.1876. No dia da sua posse libertou a escrava de nome Rosaura, mulata, costureira, com 28 anos de idade.
A 7 de agosto de 1867 faleceu sua esposa Josefa Rita Marques Basto, com 44 anos de idade, às 20:00 horas. A 25 de setembro de 1892, Paulino José fez seu testamento.
Paulino José Coelho Basto faleceu em Parnaíba no dia 10 de setembro de 1906, com 96 anos de idade. Os seus restos mortais estão sepultados na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Graça, junto aos dos familiares. Em homenagem a este ilustre português quis Parnaíba perpetuar seu nome dando o topônimo Paulino Basto a uma rua no Bairro São José, que vai da Rua Monsenhor Roberto Lopes ao Rio Igaraçu.
Dr. João Maria Marques Basto nasceu na cidade de Parnaíba, Estado do Piauí, às 2:00 horas da madrugada do dia 8 de novembro de 1859. Foram seus pais Paulino José Coelho Basto e dona Josefa Rita Marques Basto e seus avós: pelo lado paterno Manoel José Coelho Basto e dona Josefa Àlvares de Carvalho, residentes no lugar Boucinha, Freguesia de São João do Ermo d’Arnoia, Conselho de Mondim de Basto (Portugal), e pelo lado materno o português Capitão José Antônio Marques.
Foi batizado na freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Vila Viçosa da Tutóia (MA), no dia 6 de fevereiro do ano de 1862, à tarde, pelo Vigário Encomendado, o Padre Joaquim Bernardino Pereira. Foram seus padrinhos o Major Antônio José das neves e sua mulher dona Rosa Gomes de Almeida Neves2, moradores da Tutóia (MA).
O batizado realizou-se fora de Parnaíba pelo fato de Paulino José manter vínculo de amizade com o Major Antônio José das Neves e ambos serem proprietários de fazendas em Tutóia. Convém salientar que Paulino José foi o primeiro vice-cônsul de Portugal em Parnaíba, tendo, no exercício do cargo, tratado dos interesses dos portugueses e neste caso estaria incluído o Major Antônio José das Neves, filho de pais portugueses3. No mês em que foi realizado o batismo havia Paulino José solicitado exoneração do cargo.
Dr. Marques Basto iniciou o aprendizado das primeiras letras na sua terra-natal, dando continuidade aos seus estudos na cidade de Salvador (BA) com o objetivo de realizar sua vocação de ser médico. Há informações, não documentadas, de que o povo parnaibano teria ajudado nas despesas dos seus estudos em Salvador, o que não tem veracidade. Paulino José Coelho Basto diz no seu testamento: “... e ter com eles gasto bastante, mormente com JOÃO, por causa de sua formatura em medicina no que muito me auxiliou meu bom filho José Thomaz com empréstimos de dinheiro seu às vezes, para ocorrer às despesas na baía (cujas quantias ainda não pude pagar-lhe) pelo que deverá aquele irmão formado ser grato amigo deste toda a sua vida, confessando que a não ser este auxílio, me veria em apertos para acudir pontualmente àquelas despesas”4. Na Faculdade foi o mais brilhante acadêmico, merecendo dos seus mestres e colegas o respeito e admiração.
Dr. João Maria Marques Basto formou-se em medicina, pela Faculdade de Medicina da Cidade da Bahia, no dia 23 de dezembro de 1885, aos 26 anos de idade, depois de ter sido aprovado com distinção em defesa de Teses. Reinava na época D. Pedro II.
O diploma foi emitido pelo então vice-diretor da Faculdade, Dr. Antônio Pacífico Pereira, em 24 de dezembro de 1885, recebendo também as assinaturas do Secretário da Faculdade, Cincinato Pinto da Silva, e do Presidente do ato, Ramiro Affonso Mourão, constando do livro de registros: Livro “B”, folha 361, da Faculdade de Medicina, de 24.12.1885; folha 14 do Livro de registro de Inspetoria de Higiene Pública do Piauí, em 14.12.1886; folha n.º 31, do Livro Competente, conforme número 2.353, de 19.12.1928, do Departamento Nacional de Ensino e Departamento Nacional de Saúde Pública; folha n.º 139, do Livro Competente, do Departamento Nacional de Ensino – 1.ª Secção, em 17.12.1928.
Logo após o ato de formatura, em uma das igrejas de Salvador, Dr. João Maria Marques Basto, contraiu núpcias com dona Adélia Câmara Basto, nascida em 10.06.1864, de importante família portuguesa radicada na Bahia, filha do português Silvestre Carvalho Câmara e Josefina da Silva Câmara, às 18h30min. Após o ato religioso o casal viajou para Parnaíba. Dona Adélia nunca mais voltou à Bahia, recebendo dez anos depois a visita de uma tia cujo nome se perdeu na memória da família.
Do seu casamento com D. Adélia, teve os seguintes filhos:
- Aldira Basto Santos, que se casou com o Dr. Samuel Antônio Santos, engenheiro civil, ex-prefeito da Parnaíba e que foi diretor da Estrada de Ferro Central do Brasil;
- Alita Basto Ribeiro, que se casou com o comerciante Gentil Ribeiro, filho do português coronel Antônio Martins Ribeiro que foi uns dos fundadores da Santa Casa de Misericórdia de Parnaíba, sócio fundador da firma Ribeiro, Moraes & Santos (atual Moraes S. A Ind e Com.) e membro da loja maçônica União Parnaibana (atual Fraternidade Parnaibana);
- Almira Basto Correia, que se casou com José de Moraes Correia, industrial, tendo ocupado os seguintes cargos: Presidente da Associação Comercial de Parnaíba, fundador e 1.º Presidente da Federação das Indústrias do Estado do Piauí, Presidente do Sindicato das Indústrias Químicas e Farmacêuticas do Estado do Piauí, Diretor Regional do SESI, Presidente do Conselho Regional do SENAI, Membro do Conselho de Representantes da Confederação Nacional da Indústria e tendo ainda sido sócio do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Parnaíba;
- Lila Basto Marques, que se casou com o comerciante Celso da Cunha Marques, que foi um dos fundadores da União Caixeiral, Cia de Luz e Força de Parnaíba, Tesoureiro da Associação Comercial de Parnaíba, primeiro a fundar fábrica de gêlo e o pioneiro em várias obras públicas;
- Maria Basto Pires, que se casou com o Dr. Genésio Pires Rebelo, farmacêutico, tendo prestado relevantes serviços a Parnaiba.
Quando o Dr. Marques Basto chegou a Parnaíba, vindo de Salvador, já exercia medicina o Dr. Joaquim Eduardo da Costa Sampaio5, que em precárias condições, sozinho sem ajuda de um colega médico, procurou amenizar o sofrimento do povo. Ao Dr. Sampaio, como assim ficou conhecido, não se pode deixar de reconhecer publicamente os valiosos serviços prestados a Parnaíba.
Dr. Marques Basto possuía porte atlético, estatura alta, fisionomia serena, usava bigode, gostava de um fraque de colarinho branco completado com uma gravata borboleta, usava chapéu coco e anel no dedo indicador. Gostava dos melhores perfumes e possuía um forte carisma. A todos impressionava com a sua presença, inteligência, higiene, dedicação aos pacientes. Bastava sua presença para que o doente sentisse melhora. Soube impor-se ao respeito no exercício da medicina e ao acatamento dos que o conheceram.
Iniciou a higienização de Parnaíba, criou postos de saúde, foi uns dos fundadores da Santa Casa de Misericórdia de Parnaíba (fundada em 16.04.1886) assumindo sua direção em 1902. Exerceu com dignidade os seguintes cargos: médico da municipalidade, delegado estadual de Saúde Pública, inspetor de saúde da Capitania dos Portos, médico sanitarista. Como médico da Capitania dos Portos ia para Amarração (atual Luiz Correia) em escaler remado por marinheiros, a fim de fazer inspeção médica nos navios que lá ancoravam. Sobre uma dessas visitas Humberto de Campos, ao relatar sua chegada a Parnaíba em 1902, escreveu: “Cerca de duas horas depois de visitado pelo Dr. Joca Basto, médico da saúde de Porto, vindo de Parnaíba, com seu fraque e o seu chapéu coco, em um escaler impelido por quatro vogas, passava-me eu, com o meu caixote e a minha mala, para uma pequena canoa a remos”(Memórias Inacabadas – Humberto de Campos - Cap. XIV). Prestou serviços a empresas particulares, com a Companhia de Seguros de Vida da empresa Vera Cruz. Exerceu o magistério levando a luz do saber ao povo, plasmando personalidade, educando gerações..
A primeira residência do Dr. Marques Basto foi à Rua Grande onde foi construído o Pálace Hotel6. A sua Segunda residência foi posteriormente construída na mesma Rua Grande (atual Presidente Vargas) n.º 799, que depois foi residência do seu neto, meu pai, Sr. Waldinar Basto Marques, e que atualmente pertence a Pró-Médica. A sala onde a Dra. Tereza Maria de Senna Pereira Ibiapina atende os pacientes era a sala de espera dos clientes do Dr. Marques Basto, cuja porta de entrada dava para a Rua Grande; a sala anexa era a que ele atendia os clientes; a área entre esta última e a sala administrativa era a enfermaria e laboratório, onde ele preparava os remédios; a atual sala de espera era sua sala de estar; o local onde a atendente recepciona os clientes da Dra. Tereza era o terraço da casa e o primeiro compartimento de leitos (do lado direito do corredor) que serviu de consultório cardiológico, era o dormitório do Dr. Marques Basto. As árvores frutíferas que existiam (centenárias) foram por ele plantadas.
Iniciada em 1937, foi somente em 1940 concluída e inaugurada a maternidade construída pelo Dr. Mirocles Campos Veras. Em homenagem ao seu grande amigo foi dado o nome de Maternidade Dr. Marques Basto. O ato inaugural contou com a presença do Interventor, Dr. Leônidas Melo e outras personalidades de destaque da administração estadual. Como orador oficial discursou o ilustre professor e historiador Benedito Jonas de Moraes Correia, que era também amigo do homenageado e da família.
No dia 13 de outubro de 1940 faleceu sua esposa D. Adélia Câmara Basto, com 76 anos de idade, deixando profunda saudade ao Dr. Marques Basto e familiares.
Uma triste notícia, com a velocidade do raio, correu a cidade no dia 13 de outubro de 1944: faleceu o maior médico da Parnaíba, uns dos maiores homens do Estado do Piauí, Dr. João Maria Marques Basto7. A Rádio Educadora encarregou-se de transmitir a notícia. A cidade parou, o comércio e os colégios fecharam as portas imediatamente. A tristeza foi geral. Recolheu-se à Casa do Pai, o esposo, o pai, o professor, o médico amigo e batalhador, deixando a todos um exemplo de vida. Faleceu em plena comemoração do centenário de Parnaíba, cancelando-se as festividades.
O ofício fúnebre foi celebrado pelo Monsenhor Roberto Lopes que não podia deixar de encomendar o corpo do seu grande amigo. O sepultamento aconteceu às 7:00 horas do dia seguinte. Compareceram ao sepultamento as autoridades, associações de classes, comerciantes, comerciários, estudantes, pessoas gratas, gente vinda do interior para se despedir daquele que muito os ajudou. À beira do túmulo, no Cemitério da Igualdade, discursaram: o seu estimado amigo Dr. Mirocles Campos Veras e Alarico da Cunha.
Durante o seu falecimento todo o dia a Rádio Educadora de Parnaíba transmitiu os seguintes textos irradiados de quinze em quinze minutos:
- “FALECIMENTO: - Hoje, às 16 horas e 15 minutos ocorreu nesta cidade o falecimento do ilustre e venerando Dr. JOÃO MARIA MARQUES BASTO. Fazendo esta comunicação, a sua família, por nosso intermédio, convida os parentes e amigos para acompanharem o seu enterramento, amanhã, às 7 horas, saindo o féretro da casa de sua residência, à Avenida Pres. Getúlio Vargas”.
- ‘Hoje, às 19 horas, focalizaremos a vida do grande médico parnaibano, Dr. JOÃO MARIA MARQUES BASTO” .
- “A Associação Comercial de Parnaíba. A Diretoria da Associação Comercial de Parnaíba, reconhecendo na personalidade do Dr. JOÃO MARIA MARQUES BASTO, uma real expressão do valor de nossa terra, convida os senhores comerciantes de Parnaíba a acompanharem o seu enterramento, amanhã, às 7 horas, e pede ao comércio em geral, conservar fechadas as suas portas durante às suas exéquias”.
- “A União Caixeiral e Escola Técnica de Comercio. A Diretoria destas entidades avisa aos consórcios e alunos que hoje não haverá aula, em virtude do falecimento do Dr. JOÃO MARIA MARQUES BASTO, e convida os seus associados e alunos a comparecerem ao seu enterramento, amanhã, às 7 horas”.
“RÁDIO EDUCADORA DE PARNAÍBA”
“DR. JOÃO MARIA MARQUES BASTO”
Com o falecimento do Dr. João Maria Marques Basto, ocorrido, hoje, nesta cidade, perdeu o Piauí um dos seus filhos mais ilustres. Ele foi digno do destino feliz que Deus lhe reservou, porque viveu a vida toda praticando o bem, e gora, quando a morte o colheu, o pesar do seu desaparecimento envolve a cidade toda, que nele via o maior de seus filhos.
Cercado da admiração e da estima do povo, cercado da amizade e do carinho da família, de que era ídolo, o Dr. Joça Basto viveu estes últimos tempos, em que a enfermidade mais se agravou, sentindo a dedicação e o desvelo a que tinha direito pelas harmônicas qualidades de seu coração.
Anos atrás, quando da inauguração da Maternidade “Dr. Marques Basto”, muitas palavras foram ditas em seu louvor. Benedito Jonas Correia, como orador oficial da solenidade, assim apreciou a individualidade do grande médico.
“Quando há cinquenta e quatro anos, sua voz ressoou nesta terra, teve acústica propícia. Não se perdeu no espaço como a voz dos violeiros dolentes, nem no tempo, como a voz dos filósofos incompreendidos. Era a própria voz da terra, anunciando o despertar do sentimento do povo parnaibano. Despertar de uma nova vida, plena de seiva, eugênica e vigorosa”.
“Tudo que nasce sobre a terra reflete a terra” escreveu o sistematizador da medicina, Hipócrates. O homem e a terra quando se confundem em suave harmonia, é que se realiza o milagre da grandeza humana refletindo a grandeza geofísica. O Homem torna-se sensível às emoções da gente que o cerca, em absoluto equilíbrio com o meio. MARQUES amou a esta terra tão profundamente, que os fatores internos influíram na sua personalidade. Sua biotipologia pode ser estudada com os elementos ambienciais e sociais de Parnaíba. A histórica de sua vida se identifica com a história da cidade, neste meio século transcorrido. Amou esta terra e deixou se expandisse livremente seu decidido pendor para fazer o bem. Sua fisionomia moral foi única na evolução da sua vida e de seu espírito. Apóstolo do bem foi sempre o maior entre os grandes. Abençoado por um destino feliz, encontrou na caridade a missão de sua vida”.
“1886. Há cinquenta e quatro anos. Formado, no ano anterior, pela Faculdade de Medicina da Bahia, Marques Basto fixa residência em Parnaíba, sua terra natal. Dotado de um conjunto de qualidades superiores – honradez, desinteresse, inteligência, cultura -, seu destino é norteado no sentido do trabalho e do bem. O meio social e político em que vai agir, reflete uma fase nacional que se extingue, mas não impressionam o otimismo montaigneano de sua vida. Reagiu contra o meio e venceu. Traçou caminho. Energia moça e resoluta, - homem carlyleno, primeiro, homem plutarqueano, depois, - a sua vontade não cansou nunca, a conquista adveio serenamente. Encontrou em si mesmo as forças com que lutar. Vocação. Inspiração. Esforço. Vocação que nasceu com ele, inspiração que desabrochava como um surto, nos momentos difíceis, e esforço, que jamais lhe deixou morrer a tarefa iniciada”.
“A sociedade parnaibana nunca dissentiu de sua opinião; ele era o amigo, e o guia. O ambiente é que urgia modificar. E o modificou”.
”O homem e o médico agiram simultaneamente.Fez-se professor e Influiu na formação moral da cidade. Plasmava personalidades, dando saúde ao corpo e aperfeiçoando carateres. E foi, assim, durante muitos anos, o médico e o mestre”.
“Minha geração não conheceu Marques Basto como professor. Já ia longe, azulescendo na memória, o tempo que era teve colégio. Não o conheceu como professor, mas o admirou como médico. E como médico, todas as gerações futuras o conhecerão, que o selo da posteridade a mensagem que ele trouxe”.
“Marques Basto foi um mestre inconfundível. Muito culto, inteligente, de ideias claras, educou gerações, e gerações, que continuam a ouvir a sua voz e a seguir o seu exemplo. Sem vaidade, nem orgulho, a delicada emoção do mestre se transmitia, sem esforço, para a inteligência do estudante bisonho. E é por isso, e porque assim o foi, que as gerações novas vão desalterar-se na linfa dos oásis que ele descobriu no caminho, a buscar alimento na palha de ouro de seu trigo”.
“Marques Basto, médico. Nele tudo era impressão forte; o aspecto enérgico, mas maneiras polidas, a decisão firme, a alta estatura, a saúde invejável do corpo. Era o médico de todos – de todos os lares, do mais rico ao mais pobre. Envolvia-o poeira sutil de uma lenda, que era uma verdade incontestável: para o enfermo, bastava um sorriso, uma palavra, a presença do grande médico. O nome de Dr. Joca que viria receitar, se juntava às cantigas com que a mãe aflita embalava o filho doente. Foi o médico do povo parnaibano do seu tempo. Novos processos, novos médicos, novos sistemas, surgiram depois que ele se afastou da clínica. Mas, aqui, tudo tem a indicação de seu nome aureolado. Foi o precursor. Os que vieram depois não encontraram mais as pedras do caminho”.
“Marques Basto iniciou a higienização de Parnaíba. Construiu tudo que nada feito havia. A Santa Casa de Misericórdia ficou sendo a sua casa. Criou postos de saúde. Trabalhou. Exerceu e honrou altos cargos: Médico da Municipalidade, Delegado Estadual de Saúde Pública, Subinspetor de Saúde dos Portos. A grandeza de sua vida se mede pelos benefícios que espalhou”.
“Médico sanitarista, aqui, ao tempo em que Oswaldo Cruz, o médico que se fez sábio e santo, saneava o Brasil, seguindo Marques Basto o rumo traçado pelo mais alto gênio da medicina brasileira”.
“Marques Basto pontificava. Acercavam-se dele os médicos jovens. E ele, Sócrates de uma nova escola, perdido numa longínqua cidade de um Estado então desconhecido, trabalhou silenciosamente e abnegadamente pelo engrandecimento da nacionalidade”.
Estes conceitos de Benedito Jonas Correia sobre o grande parnaibano agora desaparecido refletem o pensamento comum da nossa gente.
A Radio Educadora de Parnaíba sentimentaliza pelo falecimento de Dr. Joca Basto, não somente a sua digníssima Família, mas, ao próprio Estado do Piauí. E, como prova de sua mágoa, vai fazer um minuto de silêncio. Pequeno silêncio que é o símbolo de uma grande dor.
1 minuto de silêncio.
Irradiação da Rádio Educadora no dia 04/10/1944
DR. JOÃO MARIA MARQUES BASTO – Realizou-se hoje às 7 horas da manhã, o enterramento do corpo daquele que na vida se chamou Dr. João Maria Marques Basto, ontem falecido nesta cidade, conforme noticiamos, e com tanta justiça denominado “o mais ilustre filho de Parnaíba”, na expressão do Sr. Dr. Mirócles Véras, na oração que pronunciou à beira do túmulo, e da qual nos ocuparemos mais adiante.
A ato fúnebre compareceram as nossas mais altas autoridades, pessoas gratas, representantes de todas as associações de classes, comerciantes, comerciários, operários, estudantes e pessoas do povo.
O ofício fúnebre foi celebrado pelo reverendíssimo Monsenhor Roberto Lopes que, embora ainda adoentado, não se pôde furtar ao dever de acompanhar e encomendar a Deus o corpo daquele que em vida fora um dos seus melhores amigos, ainda no tempo em que na Parnaíba tudo faltava, tudo estava por fazer, e ele, juntos, - médico e padre -, tudo procuravam realizar pelo bem estar do corpo e da alma dos parnaibanos, e pelo progresso da Parnaíba.
Desde ontem soou dolorosamente a infausta notícia do desaparecimento do Dr. Marques Basto; a sua residência imediatamente se encheu com os velhos amigos de outrora, admiradores de hoje e (obs: falta o final deste documento).
Dele escreveu com justiça “O Livro do Centenário de Parnaíba”: “O Dr. Joca Basto foi, em vida, o maior dos parnaibanos. Ninguém, no seu tempo, serviu tanto e amou tanto, como ele, a esta terra. Morto, seu nome e o exemplo glorioso de sua vida servem, e servirão sempre, de modelo edificante às gerações novas. Médico, no exercício da medicina conseguiu ele, do modo mais perfeito e completo, ser“profeta na sua terra”, servindo ao povo nos seus sofrimentos e nas suas angustias”.
Dr. João Maria Marques Basto é patrono da cadeira n.º 34 da Academia Parnaibana de Letras (APAL). Em sua homenagem o seu nome foi dado a uma rua de Parnaíba, que vai da Praça Santo Antonio à Rua Dom Pedro II, no centro.
NOTAS:
1. Conforme “O Livro do Centenário de Parnaíba”.
2. Conforme original da Certidão de Batismo.
3. O Major Antônio José das Neves era filho do Capitão Felipe José das Neves, português, fundador de Carnaubeiras (MA), Comandante Geral do Quartel ali instalado e tendo parte da tropa lutada ao lado de Fidié na Batalha do Jenipapo. Foi pai de dona Cândida Gomes Veras, esposa de Franklin Gomes Veras e tio de Ademar Gonçalves Neves (Ademar Neves), meu avô materno.
4. Conforme Testamento de Paulino José Coelho Basto, datado de 25.09.1892.
5. Conforme Testamento de José Antônio Ferreira de Sampaio, de 01.10.1867, em cujo trecho se lê: “... os remédios que tem fornecido na sua moléstia a Botica de Paulino José Coelho Basto e Companhia e as visitas que lhe tem feito e está fazendo o facultativo Doutor Joaquim Eduardo da Costa Sampaio que o está tratando ...”.
6. Conforme escrito do seu genro Celso da Cunha Marques.
7. Tem-se dito e escrito que o “Dr. Joca foi uma figura de extraordinária e lúcida que morreu pedindo que o fotografassem”. Isto não está de acordo com a verdade. Estando adoentado, após um cochilo, sentou-se na sua rede e vendo os familiares reunidos disse a meu pai: “Waldinar, que coisa bonita ver a família toda reunida! É digno duma foto”. Virou-se para o meu avô e seu genro, Celso da Cunha Marques, e solicitou um pouco d’água. Momento depois falecia conversando com os familiares.
Nota Complementar:
Tem-se dito que o Dr. Marques Basto foi estudar medicina porque a Santa Casa precisava de médico, tendo custeado seus estudos. Ora, isto não é verdade. Seu pai possuía recursos e quem muito ajudou nos seus estudos na Faculdade de Medicina foi o seu irmão. Por outro lado, quando a Santa Casa foi criada, o Dr. Marques Basto já se encontrava formado em medicina há 10 anos antes. Isto pode ser verificado comparando a data da sua formatura com a data da criação da Santa Casa. Outras pessoas dizem que o povo ajudou nas despesas dos seus estudos, o que não tem fundamento e que não passa duma grande mentira.
BIBLIOGRAFIA
Testamento de Paulino José Coelho Basto, datado de 25.09.1892. (fotocópia do original).
Inventário de Josefa Rita Marques Basto, 1869, esposa de Paulino José Coelho Basto, original.
Certidão de Batismo (original) de João Maria Marques Basto, datado de 23.10.1880.
Escritos (originais) de Celso da Cunha Marques, sem data.
Testamento de José Antônio Ferreira de Sampaio, de 01.10.1867, (original) incluso no Inventário do mesmo.
Diploma da Faculdade de Medicina da Cidade da Bahia, datado de 23.12.1885 (original).
Informações de familiares.
Documentos da época.
Teresina (PI), 04 de novembro de 2009.
Dia de São Carlos Borromeu, Bispo; Beata Francisca de Amboise, Religiosa.
“Venite, exultemos Dómino, iubilémus Deo salutári nostro; praeocupémus fáciem eius in confessióne, et in psálmis iubilémus ei”.